"M"


"M" tem "69 anos"...apesar da idade se situar num número maroto diz-se "velha".
Acumula um ar descuidado como muitas das mulheres da sua facha etária: cabelos por pentear; vestiu-se sem ligar às cores ou padrões e a sua mala revela o uso de muitos anos.
Fala das doenças que a atormentam e da grande mágoa da perda do filho, há 30 anos atrás, como se fosse hoje.
"Tinha 17 anos quando o mataram!"
Perante esta afirmação dilacerante o meu coração quase petrifica em simultâneo com o dispáro de pensamentos no meu cérebro: "mataram?"; "porque razão alguém matará um rapaz de 17 anos?"
Antes que eu questionasse algo ou e até mesmo antes que o meu rosto tivesse expressado as dúvidas que pairavam em mim M respondeu como se estivesse a ler o meu pensamento:"Foi atropelado!" 
O meu coração reagiu de imediato: "tem razão...Num acidente, apesar de forma negligente, quando as coisas correm mal alguém mata alguém..."
A expressão que, quase se pode apelidar de cruel, deve estar ao nível do que M sente no seu coração de mãe de um filho único.
Após a sua resposta M chorou de forma contida mas muito consentida. Consentiu-se à tristeza profunda e inimaginável de uma mãe que perde um filho.
Eu mantenho-me forte mas não inquebrável; atenta mas não interrogativa. Deixo-a em silêncio expelir uma vez mais a dor que ainda não a abandonou e que nunca a abandonará pois tal como me diz por entre lágrimas "é algo que nunca se esquece"...
Deixei-a respirar; aproximei-me dela e arrisquei perguntar: "Vamos falar de coisas boas?"
M enxugou as lágrimas, sorriu e perguntou-me:
"a consulta vai demorar muito? É que ainda tenho de ir à cabeleireira pois há festa na minha aldeia e eu faço questão de ir ao baile. Mas tenho de ir arranjada claro está!"
Retribui o sorriso dizendo-lhe : "acho bem; acho muito bem, Uma menina deve estar sempre apresentável."
Decididamente M não é velha. Tenta convencer-se que é para ofuscar a menina que teima em persistir dentro dela.

17 Maio de 2018

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